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Clube dos 500 – Um valioso patrimônio modernista em Guaratinguetá

Localizado às margens da rodovia Presidente Dutra, distante sete quilômetros do centro de Guaratinguetá, o Clube dos 500 é um complexo que inclui hotel, clube de golfe, restaurantes, posto de combustível e uma área residencial. Mas além de todos esses empreendimentos, o tradicional espaço de lazer da região também reúne importantes elementos artísticos, arquitetônicos e paisagísticos de célebres personalidades brasileiras. No artigo a seguir, você vai conhecer um pouco desse rico acervo.

 

Arquitetura Modernista

Internacionalmente reconhecido como um dos cinco mais importantes arquitetos do século XX, Oscar Niemeyer realizou dezenas de projetos no Brasil e em diversos países. Alguns desses projetos encontram-se localizados no Clube dos 500, o que insere Guaratinguetá tanto na cena da moderna arquitetura brasileira como cenário mundial.

As obras assinadas por Niemeyer foram construídas nos anos de 1951 a 1953 e estão edificadas em áreas particulares, dispostas em ambos os lados da rodovia Presidente Dutra. No sentido Rio-São Paulo, no interior do Hotel Clube dos 500, estão edificados dois blocos de dez apartamentos para hóspedes e um restaurante.

Do lado oposto, no sentido São Paulo-Rio, em espaço aberto de propriedade da Rede Graal, há dois projetos edificados, um deles, o do Posto de Combustível, foi destaque em duas publicações internacionais. Na revista francesa L’Architecture d’Aujourd’hui, sobre arquitetura moderna brasileira, em 1952, e no livro The Work of Oscar Niemeyer do arquiteto e escritor grego Stamo Papadaki, lançado em Nova Iorque em 1956 é inteiramente dedicado ao trabalho do arquiteto brasileiro.

 

Urbanismo

Além do genial Oscar Niemeyer, mais um renomado arquiteto modernista – Abelardo Riedy de Souza -, deixa seu legado em Guaratinguetá ao conceber uma nova paisagem urbanística para o bairro Clube dos 500, distribuindo harmoniosamente avenidas, ruas, praças, residências, áreas comerciais em uma área de mais de 800 mil metros quadrados. Abelardo, como era conhecido, assina projetos arquitetônicos de grandes edifícios em São Paulo considerados ícones atemporais e marcos do modernismo, sendo que dois deles situam-se na Avenida Paulista.

 

Paisagismo e Artes Plásticas

Burle Marx ­- considerado um gênio do paisagismo e internacionalmente reconhecido -, desenhou jardins em várias partes do mundo, inclusive no Clube dos 500, ornamentando ainda mais as obras de arquitetura de Oscar Niemeyer. Em seus projetos de paisagismo plantava as espécies em formas sinuosas, até então inéditas em jardins, criando efeitos visuais belíssimos.

O paisagismo exuberante do imenso jardim do Hotel Clube dos 500 foi o que mais resistiu ao tempo e hoje é desfrutado também pelas garças brancas tão numerosas no verão, fazendo jus ao nome da cidade, Guaratinguetá, que em tupi significa: muitas garças.

Também permanecem conservadas quatro frondosas árvores plantadas em 1953 por Burle Marx em frente ao Restaurante projetado por Niemayer, cujo projeto de arquitetura foi severamente alterado em 1993. Hoje, é possível avistar fragmentos do projeto original ao observar o teto do Restaurante, que desde 1997 vem sendo administrado pelos proprietários da Rede Graal.

Nas artes plásticas destaca-se um afresco do célebre artista plástico modernista Di Cavalcanti, pintado numa das paredes do Restaurante que leva seu nome, projetado por Oscar Niemeyer, localizado no interior do Hotel Clube dos 500. No colorido afresco, Di Cavalcanti retrata cenas tipicamente interioranas das cidades do Vale do Paraíba nos idos dos anos 50: a prosa das comadres de lenço na cabeça, acomodadas em cadeiras postas na calçada, camponeses tocando viola sob a sombra do coqueiro, lavadeira com trouxa de roupas na cabeça, cachorro enrolado dormindo no chão, galo solto pelo quintal, pássaro na gaiola e, no primeiro plano, uma moça de cintura fina, sapato de salto alto, chapéu de abas largas e uma curiosa bolsa em uma das mãos.

À direita, no alto, a pintura destaca um pescador numa pequena canoa sobre o leito do rio, e, à esquerda, a imagem de uma singela igreja. Muito provavelmente, as cenas simbolizam a fé católica de dona Nilza, esposa de Orozimbo, criador do Clube dos 500, em Nossa Senhora Aparecida.

No início da construção do Clube dos 500, Di Cavalcanti foi hóspede de Orozimbo, quando então executa o monumental afresco durante o ano de 1951.

 

Camping Clube dos 500

Em área contígua ao Clube dos 500 encontra-se em pleno funcionamento o Camping Clube dos 500, o primeiro camping criado no Brasil. Um dos destaques do camping é sua singela e graciosa arquitetura, de autoria do premiado arquiteto Ricardo Menescal.

Também de sua autoria o desenho da icônica marca do camping, representada por três barracas de camping. O detalhe da marca também está presente nos azulejos confeccionados exclusivamente para ornamentar o balcão do restaurante do camping.

O arquiteto Menescal teve marcante trajetória no Rio de Janeiro ao assinar projetos importantes como o da sede do Flamengo Futebol Clube, do Planetário da Gávea, do Museu do Universo, dentre outros.

Além das edificações do camping – sede administrativa, residência do administrador, restaurante e lavatórios –, há vários outros projetos de arquitetura no Clube dos 500 assinados por Menescal, incluindo a residência de Orozimbo e de seus filhos, executados na década de 60.

Uma curiosidade, Ricardo é irmão do músico e compositor Roberto Menescal, um dos principais fundadores do movimento musical da sofisticada, suave e poética Bossa Nova, iniciado pela juventude universitária do Rio de Janeiro em 1957.


A Origem do Nome “Clube dos 500” e seu Criador

Clube dos 500, localizado às margens da rodovia Presidente Dutra, distante sete quilômetros do centro de Guaratinguetá, é um bairro planejado, criado a partir da Fazenda Vista Longa, adquirida por Orozimbo Roxo Loureiro na década de 40.

Com vista panorâmica para a Serra da Mantiqueira e localização privilegiada – a meio caminho das duas mais importantes capitais brasileiras –, a Fazenda Vista Longa mostrou-se ideal para materializar o sonho de Orozimbo, de ali criar um elegante clube social, e para concretizá-lo reuniria 500 amigos dentre um seleto grupo da elite paulista e carioca. Daí nasce o nome Clube dos 500.

Em 1951, com a recém inauguração da rodovia Presidente Dutra as terras da Fazenda Vista Longa são divididas quase ao meio, e o então propósito de Orozimbo, de ali criar um sofisticado clube social com os 500 associados, deu lugar a dois novos e arrojados empreendimentos: numa margem da rodovia, um luxuoso complexo hoteleiro e confortáveis casas de veraneio, no outro lado, um loteamento de casas, considerado uma novidade revolucionária para o modo de vida dos brasileiros da época, pois ainda não havia o conceito tão comum hoje em dia dos condomínios residenciais.

Orozimbo dá início, então, à criação do Clube dos 500, sendo o responsável pela chegada de célebres figuras a Guaratinguetá, sobretudo de arquitetos, engenheiros, desenhistas e calculistas, paisagistas e artistas plásticos, colaboradores que eram nos projetos de construção dos grandes edifícios em São Paulo empreendidos pelo Banco Nacional Imobiliário – BNI e Companhia Nacional Imobiliária – CNI, dos quais era o acionista majoritário.

As empresas comandadas por Orozimbo foram responsáveis por materializar dezenas e grandiosas realizações na área imobiliária e da construção civil, como o gigantesco e emblemático Edifício Copan. E mais, pode ser atribuído a Orozimbo o início da transformação da cidade de São Paulo numa grande metrópole.

Orozimbo, nascido em Jaú, SP, em 1913, viveu boa parte de sua vida em Guaratinguetá. Foi um influente empresário e banqueiro tendo alcançado o auge do sucesso nos negócios na década de 50. Moderno, arrojado, de mente aberta, líder incomum pela amizade que distribuía a todos por igual, pelo entusiasmo contagiante, pela fenomenal força criadora e capacidade notória de empreender e realizar foi um homem avant la lettre.

Pelas mãos generosas e caprichosas de Orozimbo, o Clube dos 500 – um pedacinho de terra no Vale do Paraíba – tem hoje um valiosíssimo legado de arte e cultura.

 

Fonte: livro “No Meio do Caminho, Clube dos 500”, de autoria de Ana Cristina Canettieri. @fotoclubedos500

Fotos: Nelson Kon, Ana Cristina Canettieri e Acervo da Faculdade de Arquitetura da USP.

3 respostas

  1. Fantástica reportagem! Texto impecável. À altura do valioso legado artístico-cultural localizado em Guaratinguetá. Parabéns!

  2. Lugar lindíssimo! Tanta natureza, arquitetura e história para desfrutar e infelizmente pouco divulgada!
    Vale a visita de todas as famílias da região!

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